Muito Além do Jardim
Secret Garden

Começamos assim: preparando bem os canteiros, levantando-os a 15 cm de altura. Se você não tiver um jardim ou um espaço de terreno disponível, experimente um vaso ou uma floreira, coloque perto de uma janela.

 
A prática da jardinagem nasce com as primeiras civilizações. A Mesopotâmia nos deu uma das maravilhas do mundo: os Jardins Suspensos da Babilônia, que se caracterizam por um desejo de superação do arquitetônico sobre o natural; no antigo Egito, os jardins deveriam ter uma simetria rigorosa; o povo persa introduziu a liberdade e as flores perfumadas;a Grécia possuía jardins com características próximas das naturais; os romanos criaram jardins metódicos e ordenados, integrando-os às moradias; na China e Japão, a tarefa do jardineiro limitava-se a ordenar o já existente, concentrando atenção ao essencial. Já na Idade Média, com a construção de várias igrejas e mosteiros, o verde foi praticamente banido da vida urbana, limitando-se ao uso funcional (ervas medicinais, hortaliças, ou flores para os altares das igrejas).
Jardins Roma
 
O Renascimento, na Europa, traz para os jardins a organização formal. A paisagem era desenhada com régua e compasso, resultado disso é a simetria das linhas geométricas. Os jardins desse período são tidos como centros de retiro intelectual onde estudiosos e artistas podiam trabalhar e discutir, longe do calor do verão das cidades.
 
No Brasil, a história documentada do paisagismo inicia em 1808, com a chegada de D. João VI e a criação do Jardim Botânico, ganhando forças com a contratação de profissionais para os preparativos do casamento de D. Pedro I. A partir daí, a prática se espalha para os outros estados brasileiros de forma livre, como observam os especialistas do assunto, “nem sempre respeitando um único estilo.”
 
Continuando... use 30 gramas de adubo NPK de uma fórmula comercial ou 150 gramas de esterco bem curtido para cada 1 metro quadrado de canteiro, ou substitua tudo isso por um pouco de terra boa. Misture bem.
 
O jardim é uma pequena porção de natureza planejada, idealizada para existir perto do homem. Ele pode ser público, localizado em praças ou parques nas áreas urbanas; ou privado, junto às residências, como forma de ornamentação da fachada, ou como lugar de convívio na parte externa ou interna, o chamado Jardim de Inverno; ou, ainda, em pequenas floreiras ou vasos nas sacadas e janelas dos apartamentos.
 

Observa-se que, ao longo dos tempos, o homem sempre procurou construir jardins para seu deleite, e também para uma tomada de consciência de seu lugar no mundo, como bem nos diz Giulio Carlo Argan: “A natureza não é apenas fonte de sentimento; induz também a pensar, especialmente na insignificante pequenez do ser humano frente à imensidão da natureza e suas forças.”

Próximo passo: Semeie e cubra com 0,5 cm de solo fofo ou serragem fina. Época de plantio: todo ano (ideal para o verão).

 

No século XVIII, na Inglaterra, um termo surge como categoria estética em relação à paisagem natural: Pitoresco. Este termo está ligado à raiz do Romantismo Histórico e evoca as imperfeições, assimetrias, detalhes curiosos de uma natureza acolhedora, generosa, irregular, agradável, um estímulo à imaginação e ao pictórico. O pitoresco vai expressar-se na jardinagem, quando esta interfere na natureza sem tirar-lhe a espontaneidade. Segundo Argan, “o pitoresco põe em relevo a irregularidade ou o caráter das coisas.”

Entre os pioneiros da chamada estética pitoresca, encontram-se Alexander Cozens, que teoriza e expõe um método de pintura pitoresca que seu filho e também pintor, John Robert Cozens, continuou desenvolvendo; William Gilpin, que em 1782 cria uma espécie de guia ilustrado do pitoresco; Richard Payne Knigth, que escreve em 1794 um poema didático intitulado A paisagem; Sir Uvedale Price, que entre 1794 e 1798 escreve o Ensaio sobre o pitoresco, e coloca-o em prática no traçado de sua propriedade rural no condado de Hereford, nos EUA e Jean-Jacques Rousseau, que vai falar em Pitoresco Social, relacionando natureza e sociedade, integrando o indivíduo ao seu ambiente natural.

O artista norte-americano Robert Smithson, a partir de seu trabalho “Um passeio pelos monumentos de Passaic”, cria o que poderíamos chamar de Pitoresco Entrópico. Apresentado em um livreto ilustrado, como em um diário, descreve-nos, detalhadamente, os acontecimentos do sábado 20 de setembro de 1967, em sua ida à Passaic, sua cidade natal, subúrbio de Nova Jérsey. Nesse diário relata-nos o contato com uma paisagem constituída de restos de um território industrial. Esse panorama parecia conter uma série de ruínas românticas invertidas, ou seja, as construções e objetos encontrados não caem após serem construídos, e sim alcançam o estado de ruína antes de serem construídos.

Smithson encontra e nomeia monumentos algumas das situações com as quais se depara por acreditar que elas revelem a memória imediata desta região, como o Monumento Ponte sobre o Rio Passaic, cercado por outros monumentos menores, tais como máquinas e materiais utilizados na construção de uma nova estrada. Caminhando em direção ao norte, ao longo do rio, encontra e fotografa os Monumentos Grande Tubo, Plataforma de Bombeamento e Fonte. Alguns passos à frente, e lá está o Monumento Caixa de Areia, constituído de pequenas partículas que, segundo o artista, o faziam resplandecer com a luz do sol que brilhava tristemente.

 
 
 

Um profundo sentimento de admiração me faz refletir sobre esse assunto e criar a ocorrência Jardim Secreto, que tem como objetivo o desejo de despertar uma motivação afetiva nas pessoas envolvidas (para além do jardim).

Após semear, regar pelo menos uma vez por dia, preferencialmente ao início da manhã ou no fim da tarde. As sementes germinarão entre 5 e 14 dias.

Caminhando por praças e parques da cidade de Porto Alegre desde novembro de 2007, sem um cronograma e roteiro pré-estabelecidos, tenho distribuído envelopes com sementes de flor. Estes envelopes foram planejados especialmente para esta ação e contêm instruções detalhadas para o plantio e cultivo de uma flor de jardim, omitindo, contudo, a espécie contida no seu interior.

A cada saída, ao longo destes meses, uma nova surpresa: a aceitação sorridente das pessoas abordadas, os comentários felizes e agradecidos como:

Estava mesmo precisando!
Sementes de flores, que bom!
Vou levar para a minha mãe, ela gosta disso.
Vou plantar no meu sítio...
Tenho muitas flores na minha casa!
Posso levar mais um?

 
 

Nenhum comentário questionador referente à origem do trabalho, ou a alguma intenção velada surgiu. Mesmo por parte de algumas pessoas que, após perguntarem que semente continha o envelope e descobrirem que eram secretas, apenas um esclarecimento:

Por favor, só me diga uma coisinha, devo plantar em um espaço grande, ou pode ser em um vasinho?

 
O fato que mais me emocionou, aconteceu na Praça México localizada na zona norte de Porto Alegre. Era um sábado muito ensolarado de janeiro deste ano, a praça estava cheia de crianças brincando, famílias tomando chimarrão, jovens ouvindo música e jogando bola, comecei a distribuição de um ponto da praça ao qual retornei após percorrê-la. Sentei um pouco para descansar e percebi que uma família (mãe e um casal de filhos) estava plantando ali mesmo as sementes entregues por mim há alguns minutos. Acredito que esse foi o momento mais feliz do Jardim Secreto e fez todo a experiência valer a pena.
 

 

 

 

 

 

“Gesto é o nome dessa encruzilhada onde se encontram vida e arte (...) Nem valor de uso, nem valor de troca, nem experiência biográfica, nem acontecimento impessoal, o gesto é o contrário da mercadoria, fazendo precipitar na situação os cristais dessa substância social comum.”

Giorgio Agamben
 
Através de um gesto simples, anônimo e fugaz, pretendo levar algo novo ao dia-a-dia da pessoa que acolhe um dos quase dois mil envelopes, que guardam um pequeno segredo que só será revelado pelo carinho do cultivo. A proposição faz pensar também em um jardim acontecendo à distância, várias flores brotando em segredo, uma em relação à outra, mas todas fazendo parte de um grande jardim e unidas por gestos de carinho.
 
A floração acontece em 60 dias no verão e em 70 dias no inverno. Atrai borboletas.
 
Melissa no Jardim
 
Melissa Flôres
Junho de 2008

 

Dobrar uma esquina...


Ao refletir sobre minha produção pessoal como artista, percebo que compartilho angústias, dúvidas, desejos e interesses com um grupo de artistas e pensadores atuantes no passado, nos quais reconheço um sentimento que aqui chamarei de romântico. Estes artistas têm em comum algumas atitudes: evadiram-se de seu meio social, desligaram-se dos grandes eventos, menosprezaram a glamurização em busca do encontro com a essência, das coisas mínimas, da natureza, dos sentimentos que pudessem proporcionar uma felicidade autêntica, mesmo que por apenas um momento.

Fico imaginando, por exemplo, o que animou o artista alemão Albrecht Dürer, no ano de 1503, a pintar com tanto esmero e delicadeza um pequeno tufo, composto de dente de leão murcho, ervas, pimpinela e plantago, e também tanchagem, em tamanho natural: Pormenor de um Prado Silvestre.
Talvez por acreditar que se possa encontrar beleza numa coisa quase insignificante, Dürer nos apresentou um detalhe tão ínfimo da natureza.


Segundo John Berger , este tipo de representação foi “uma absoluta novidade no domínio da arte na época”. O pintor irá justificar sua percepção de realidade, mais tarde em seu escrito Teoria das Proporções, dizendo que: “a vida na natureza faz com que se reconheça a verdade das coisas”. Vale lembrar que Dürer era filho de um ourives; talvez o exercício de olhar as minúcias e os detalhes venha também da observação do trabalho do pai.

Dürer

Mais tarde, já no século XVIII, o filósofo Jean-Jacques Rousseau, inaugura o que poderíamos chamar de “poéticas da evasão”. Os artistas praticantes desta poética têm em comum a atitude do extravio com clara raiz romântica. Esses artistas retiram-se dos círculos culturais e socias, como se pode perceber nas práticas dos integrantes do Surrealismo, do Situacionismo e, mais recentemente, no Brasil, na obra de Hélio Oiticica.

No caso de Rousseau, a retirada acontece para fora da cidade, o filósofo evade-se para junto da natureza no topo de uma montanha ou num bosque nas cercanias de Paris. Em seus refúgios, Rousseau apreciava as caminhadas. Nestas caminhadas, realizou um tipo de catologação de espécies botânicas. Caminhava e se inspirava para escrever. Na célebre obra Os Devaneios de um Caminhante Solitário, em uma pequena passagem, revela seu interesse pelas pequenas coisas e aproxima-se de Dürer:

Dizem que um alemão escreveu um livro sobre uma casca de limão; eu teria escrito um sobre cada erva dos prados, sobre cada musgo dos bosques, sobre cada líquen que recobre os rochedos; enfim, não queria deixar um único filamento de erva, nem um átomo vegetal sem uma ampla descrição.

No Surrealismo, a evasão acontece dentro da própria cidade, com o uso de exercícios e jogos para deixar que o acaso pudesse surpreender. A atitude surrealista na cidade de Paris no início do século XX é feita de caminhadas e perambulações.

Com os Situacionistas a evasão também ocorre dentro da própria cidade, construíam mapas para perder-se pela cidade e para a deriva, situações construídas na vida e na criação de momentos, planejando estratégias labirínticas de evasão dentro de seu cotidiano.

Já Oiticica evade-se de seu meio social para encontrar sentido para sua vida e obra. Junto aos sambistas, nos “morros e quebradas” das favelas cariocas, toma uma postura crítica de colocar-se à margem, tornando-se o Oiticica que proclamava a frase: Seja Marginal, Seja Herói. A rua era seu alimento e, com isso, tornou-se um obcecado desenhador de mapas de territórios incógnitos, como definiu seu companheiro Waly Salomão.

Duas características me parecem imprescindíveis neste exercício romântico de observar e dar potência ao detalhe: a melancolia, uma espécie de efeito colateral da alma romântica, um certo desajuste, fruto da separação do outro em busca de um mundo novo; e os olhos ardentes de tanto olhar, como disse Goethe, um encantamento, uma observação intensa e ingênua sobre as coisas, possibilitando que se veja de outra forma o já visto.

Tocada pelo estudo destes artistas e filósofos, venho realizando a ocorrência Esquina. Utilizo, em meu exercício de criação, a prática das caminhadas pela cidade, muitas vezes sem uma direção definida, ou mesmo mudando os trajetos por ruas desconhecidas, para que o acaso, tal como se dava nas práticas surrealistas, possa trazer algo. Como a surpresa de uma situação inusitada, de uma visão ou contato inesperado pode ser um momento feliz de emoção e pode tocar em sentimentos que precisam ser tocados!

Ofereço ao público passante de esquinas da cidade um gesto mínimo: uma essência aromática aplicada sobre a calçada, gesto este quase imperceptível à vida apressada das pessoas que podem nem percebê-lo. A ação acontece de forma totalmente anônima e secreta. Esta situação é planejada até certo ponto, pois, a partir do momento em que o cheiro é aplicado e me retiro do local, o acaso e o aleatório regem o decorrer da ação.


 
 

Emigremos por alguns instantes para um mundo, senão puro, pelo menos mais refinado; respiremos perfumes, não mais salutares, talvez porém mais delicados. Baudelaire, 1869.

Por também acreditar na força de um momento mínimo, sigo procurando pela cidade de Porto Alegre outras esquinas para receber, em um amanhecer qualquer, o perfume aplicado por mim. Este gesto volátil faz com que o aroma se extravie para além da superfície da calçada, invadindo a rua e as janelas mais próximas na mesma velocidade que evapora e desaparece.

O que pretendo com Esquina é fazer brotar de dentro de uma situação outra situação, um desejo romântico de que a pessoa possa ser envolvida por uma lufada e ter, pelo menos por um instante, um momento de felicidade inesperado.

*

 

Caminhando por uma rua qualquer, em um dia comum, seguindo a rotina diária de uma vida também comum; ao dobrar uma esquina, sinto que algo não está igual a todos os dias nesta rua. Sou abordado por uma situação inusitada em meu monótono cotidiano e acordo. É como se estivesse sendo envolvido por um aroma que parece não fazer parte deste local, é como se estivesse sendo levado para outro lugar.

*

 

 

 

Melissa Flôres Janeiro de 2008


 
AFAGO
 

Durante o ano de 2003 propusemos no Torreão (lugar de produção e reflexão sobre arte contemporânea em Porto Alegre) uma série de workshops sobre o tema Cidade. Intitulado de Atelier Aberto: a cidade constava de quatro exercícios práticos para abordar as cidades como tema, matéria e objeto de arte. Um dos exercícios instigava os alunos a pensarem as cidades não apenas como espaço físico, com suas especificidades geográficas. Era imprescindível considerar elas como espaço mutável de memória, história e antropologia. Entender que também poderiam ser matéria de trabalho o uso que suas dinâmicas sociais acabam por imprimir nos seus espaços.

Desde as primeiras discussões com Melissa Flôres a respeito do que ela pensava em fazer só havia uma certeza: deveria ser executado na cidade onde vive, Marau, e o lugar deveria ser o hospital da cidade. Mas o que fazer? Ponderamos que este era um lugar que as pessoas que o freqüentavam não tinham qualquer necessidade de um reforço de consciência sobre o fato de estar ali. Também frente à dor, os consolos muitas vezes se mostram estéreis pela sua superficialidade e onipotência. Propostas que colocavam a arte como possibilidade fugidia também se mostravam no mínimo tolas para o momento.

Melissa partiu da premissa da impotência do gesto artístico com transformador de uma realidade. Aceitar a insignificância de uma ação frente ao inevitável, mas mesmo assim agir acaba fazendo com que esta ação adquira lenta e despretensiosamente uma nova força. Melissa intitulou a sua ação como Afago. Criou uma série de vidros com um rótulo onde a marca do seu projeto foi impressa. Dentro deles colocou uma série de diferentes aromas agradáveis e os lacrou. Em um dia especifico perambulou pelo hospital distribuindo gratuitamente estes vidros para pacientes, visitantes e equipe do hospital. Manter o anonimato e não emoldurar a ação com uma divulgação foi fundamental para que esta não ambicionasse suplantar o contexto.

Pensar a cidade como matéria da arte é fundamental a partir de uma escuta para depois elaborar uma resposta. Se ela pode parecer pouca ou insignificante ela ainda é uma possibilidade. Melissa oferece um gesto carinhoso e compreensivo. Se não podemos mais transformar uma história social ou individual com a arte ainda podemos transformar os instantes. E toda a história é feita de uma série infindável de instantes.



Jailton Moreira Janeiro de 2004