Mais ou menos por fevereiro desse ano, ainda morando em Portugal, eu recebi uma carta de Felipe, e dentro do envelope continha, entre outras coisas, uma concha dentro de um saquinho de veludo, e um certificado de posse da tal concha. Era o projeto "Adote uma Concha", da artista plástica Melissa Flôres, que ele participou ao acaso, e resolveu ampliar a extensão geográfica mandando-a pra mim, desde Porto Alegre. A idéia da Melissa está muito bem explicada no site do projeto e nao vale a pena eu descrever aqui porque a pesquisa dela está mais do que completa no site, (com direito à Francis Ponge e outros "grãos de areia", de quem gosto tanto). O Felipe que gosta das coisas do universo, das ciências biológicas e mais recentemente de "Earthworkers" como Robert Smithson, costuma passear pela redenção e acho que ele se identificou com o projeto. Foi lá que ele entrou nessa história. Eu sequer sabia do projeto lá em Portugal, quando recebi a carta contendo a posse.
Atrás do certificado, o Felipe escreveu: "Concedo à voce, Mayana Redin, o dever de zelar até o último dia de permanência no estrangeiro, esta concha, para depois enviá-la ao mar".
Pois entao, foi o que fiz, e no penúltimo dia que estava em Portugal fui ao mar e aqui conto o desenrolar dessa história.
Aconteceu algo curioso. Escolhi um lugar específico para jogar a concha, com cuidado. Algumas praias de Portugal nao têm abundancia de conchas, principalmente as praias com foz, como é o caso da que eu estava, Miramar. Elas possuem pedras, milhares delas, devido ao rio. Entao pensei em jogá-la num local cheio de pedras, pra, quem sabe, causar um contraste, ou provocar alguma dissonância estética. Algo irrisório, claro. Porque somente eu estava participando do tal "acontecimento". Escolhi o local com cuidado e joguei a concha. Antes fiz uma sequencia de fotos para mandar para o Felipe confirmando a responsabilidade sobre o meu título.
Uns minutos depois, uma velha que vinha catando pedras pela beira da praia achou a concha. E pegou-a, sem exitar.
Na hora fiquei sem reação. Tentei puxar assunto, "oi...", mas ela se virou meio desconfiada. Agora a concha que um dia estava em Porto Alegre, destinada à voltar pro mar, e com a probabilidade de cair num mar gaúcho, no máximo brasileiro, está provavelmente ao lado de bibelôs e de outras conchas na casa de uma velha senhora portuguesa, que deve contar pros netos: "achei essa concha enorme na praia que só tinha pedras. olha que sorte!"
Daria tudo pra encontrar essa velha de novo e saber dos novos rumos da concha viajante.
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