"É como se, de toda a História da Arte, se elevasse um brado mudo para que lhe devolvam a liberdade do gesto."
A primeira vez em que estive no sobrado de número 28, da rua Cel. Bordini, foi em razão de uma visita coletiva ao atelier de nosso professor de gravura, nos anos de faculdade. O anfitrião conduziu o grupo de estudantes pelos dois pisos da casa equipada com materiais de gravação, impressão e secagem de gravuras, explicando-nos sua rotina de trabalho, no atelier.
A casa era um tipo de construção comum em Porto Alegre. Integrava um conjunto de sobrados geminados, cada qual com cômodos espelhados em relação ao vizinho, peças arejadas, um pequeno pátio atrás e um jardim na frente, fechado por um portão baixo, de ferro. Uma casa antiga, próxima ao encontro de duas avenidas barulhentas e da qual pouco retive, pois, naquela ocasião, estava totalmente absorta pela minha primeira visita ao atelier de um artista profissional. Logo em seguida, a existência do sobrado apagou-se de minha memória.
Vinte anos mais tarde, quando as artistas Vera Lago e Melissa Flôres informaram-me o endereço de B28 - segundo elas, ‘ocupação em dupla de uma casa situada na Coronel Bordini, número 28’ -, pressenti tratar-se do mesmo sobrado. De fato, o portãozinho de ferro se abriu novamente para o lado ‘B’ da casa geminada, trazendo-me a pequena alegria que esse tipo de coincidência costuma provocar.
O que haveria para descobrir naquela casa? Por que ela havia sido eleita por essas artistas para uma ação conjunta? O que teriam elas visto ali, que me passara desapercebido há duas décadas?
Lâmpadas, pias, portas, telhas, livros, fios, buracos, móveis, água, teto, reboco, canos, degraus, insetos, sótão, espelhos, mofo, escadas, sol, forro, odores, eletricidade, ralos, folhas, paredes, gesso, vidros, azulejos, piso, terra, calhas, ferragens, rodapés, ar, reflexos, lajotas, vasos, ranhuras e outros resíduos compunham o cenário da casa momentaneamente desocupada.
A primeira impressão, ao entrar, era a de não haver nada ‘feito’ ali pelas artistas, nenhum vestígio de ‘intervenção’, ou de ‘trabalho específico’, procedimentos comuns na arte contemporânea que opera fora de situações expositivas.
Em seu plano de ocupação, Vera Lago e Melissa Flôres optaram por não trazer novos objetos para o sobrado, mas observar e operar delicadamente sobre a situação que se dava a conhecer no presente.
Juntas, limitaram-se a atualizar gestos virtualmente passados ali através do desenho de suas próprias ações, falas e percepções da casa. Algumas tardes quentes de um verão porto-alegrense foram dedicadas a tatear os quatro cantos do sobrado, a gravar imagens e a copiar os títulos infinitos de uma biblioteca inexplicavelmente esquecida por lá.
Cumprido esse estágio, elas abriram o sobrado para que amigos e colegas rastreassem alguns poucos indícios do período de ocupação: a obsessiva coleção de títulos literários, de todos os gêneros e para todos os gostos; o aroma cítrico, deixado por alguém que cruzou a sala em direção ao jardim; o espelhamento virtual de ações cotidianas, nas duas faces da casa geminada; a travessia de uma mancha de sol pelo forro do quarto de solteiro e, por fim, a eloqüência de uma barreira estupenda de livros obstruindo o acesso às dependências de serviço, nos fundos da casa.
Como no passado, tampouco agora me seria oportunizado conhecer o número 28 da Cel. Bordini mais profundamente.
A operação B28 é intransigentemente epidérmica, tocando suavemente a superfície de uma peça, e a de outra, não; aberta a amigos, e reservada dos olhos do grande público; ora visível na sala principal, ora oculta no interior de um quartinho bloqueado; capturável num reflexo, num arrepio ou numa inspiração mais profunda, a certa altura da escada.
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Em seu livro, Meios sem Finalidade, Giorgio Agamben nos recorda da distinção feita por Aristóteles entre os verbos ‘fazer’ e ‘agir’: ‘Fazer’ implica em objetivar algo para além da própria ação, enquanto ‘agir’ conhece em si mesmo sua finalidade.
O gesto, diferentemente da feitura, é uma volição intransitiva, que desloca significados, renunciando à fixidez.
Maria Helena Bernardes, artista plástica.
Porto Alegre, maio de 2006. |